Pau Brasil de Oswald de Andrade

por Juliano Klevanskis

Esta é uma resenha de Pau-Brasil, de Oswald de Andrade, o primeiro livro de poemas do modernismo brasileiro contra a tradição romântica. As ideias deste autor influenciaram a minha tetralogia literária sobre a história do Brasil, composta por: "Maíra & Curumim" (longo poema indianista e nacionalista); "Zorobabê - O Elogio do Medo" (tragicomédia sobre o cacique potiguar Zorobabê e outros personagens dos séculos XVI-XVII); "Curumim na Terra Sem Males" (prosa ficcional baseada em mitologias indígenas após o Descobrimento); "A História da Poesia Brasílica" (textos que mostram a evolução da escrita poética brasileira ao longo dos séculos).

Na primeira parte de Pau-Brasil, denominada POR OCASIÃO DA DESCOBERTA DO BRASIL, há os poemas “Escapulário” e “Falação”, onde destaco as seguintes características: passado revisto com crítica; valorização de riquezas econômicas, sociais e culturais do país; poesia surpreendente, nova e sintética; visão crítica em relação à cópia e à arte; valorização do popular, em especial do nacional (a paisagem nacional). “Escapulário” é o poema básico de Pau-Brasil: traduz as ideias principais! [Escapulário pode significar bentinho, objeto de fetiche, sorte; ou tira de pano que religiosos de certas ordens trazem no peito]. Aqui destaco estas características: ausência de pontuação e gosto pela síntese (característica modernistas); “Pão nosso de cada dia” (paródia da oração); e valorização da paisagem nacional (exemplo: Pão de Açúcar). Já em “Falação”, há inúmeras nuances: resumo das ideias do manifesto do Pau-Brasil; propriedades de prosa; revisão da história do Brasil; jogo com o contraste e com o popular; valorização das riquezas econômicas, sociais e culturais, etc.

Em HISTÓRIA DO BRASIL, segunda parte, o autor reconta a história da colônia, defendendo o colonizado e criticando o colonizador. Há um quadro de Tarcila do Amaral, esposa de Oswald de Andrade: a artista busca o novo, o sintético; desenha como uma criança; valoriza o primitivo, a paisagem nacional, a infância do Brasil e da história. No poema “Pero Vaz Caminha” (suprime-se o “de”), tem-se o sentido de caminhar, mudar, andar e dominar. A descoberta foi feita por Caminha, mas a redescoberta por Oswald: redescoberta da terra. O poeta, através da ironia, transforma a prosa em poesia sem usar métrica ou pontuação; essa liberdade é uma forma nova de ver o Brasil. Quanto à redescoberta dos índios, o poeta critica a linguagem agressiva dos portugueses que chamam os índios de selvagens quando estes manifestam medo de galinha. Em “Primeiro Chá”, há um momento de solidariedade; primeiro encontro na perspectiva do colonizador e de aparente solidariedade. “As Meninas do Gare” se refere a uma estação de ferro; o poeta ironiza a atitude dos portugueses, que trouxeram a prostituição aos índios! O poema “Gandavo” é uma revisão dos textos históricos. [Gândavo foi um historiador muito importante da época do descobrimento]. Oswald retira o acento do nome propositalmente, pois o poeta revê o texto do historiador. O “Capuchinho Claude D’Abbeville”, escrito em francês, apresenta a visão do colonizador e a invasão dos franceses na costa brasileira. Em “Frei Vicente do Salvador” [um dos primeiros brasileiros a escrever sobre o Brasil], Oswald critica a disputa entre o estrangeiro e o nacional pelas matérias-primas. Em “Frei Manoel Calado” [quem registrou as riquezas minerais], Oswald ironiza o Brasil de luxo e riqueza.

POEMAS DA COLONIZAÇÃO reconta a história do negro, assumindo o ponto de vista dos escravos coloniais; enfatiza as crendices, as relações sociais, a culinária, a linguagem oral como importante valor cultural. O desenho de Tarcila do Amaral valoriza a mão-de-obra negra e escrava. Em “O Gramático”, há a contribuição da fala do negro no modo de falar hoje. Em “Cena”, o poeta focaliza uma cena de violência. Em “Capoeira”, violência e capoeira são retratadas como heranças culturais. Em “Relicário” [objeto pequeno precioso, de valor econômico e afetivo] valoriza-se a comida, o fumo, a pinga; enfim, o autor valoriza aspectos da cultura popular brasileira. Em “Senhor Feudal”, há brincadeira no tom de ameaça, agressão; Oswald se torna moleque, revisa e inverte o poder das hierarquias.

Em SÃO MARTINHO, o poeta explora as diferentes fases da produção econômica brasileira, ressaltando o café, o ouro e o início do período da industrialização. No âmbito social, o autor focaliza os problemas referentes à educação rural, o papel social imposto ao negro, a violência e as condições de vida do trabalhador; também a paisagem natural convivendo com a tecnologia.

Na quinta parte, denominada RP1, através da poesia o poeta vê o mundo e dele retira a matéria básica para construir seus textos. Nesse caderno são abordados os seguintes temas: a questão das disputas comerciais; a presença do imigrante na sociedade brasileira; a agitação dos centros urbanos; e as novidades do mundo moderno. Em “3 de Maio”, a poesia aparece na busca do novo: “Aprendi com meu filho de dez anos / Que a poesia é a descoberta / Das coisas que eu nunca vi”.

Em CARNAVAL, o poeta critica o carnaval enquanto manifestação cultural criada com artifício. Já é o prenúncio da industrialização da cultura brasileira. O poeta percebe essa tendência e a critica. Aqui destaco o poema “Nossa Senhora dos Cordões”, onde se ironiza o carnaval que se mistura com religião.

Em SECRETÁRIO DOS AMANTES, há crítica ao brasileiro que se curva aos valores estrangeiros e crítica à classe média burguesa. Através dos poemas constituídos de seis estrofes, o poeta articula um texto voltado para o movimento de cartas e respostas. O poema representa a voz de dois amantes da classe média burguesa.

Na oitava parte, POSTES DA LIGHT, o poeta faz uma visita a São Paulo e revê o interior do estado e a capital. Em tom de crítica fala da cultura oficial, do futebol, das lutas livres, da música, da publicidade, das escolas e dos bordéis. “Atelier” é um poema dedicado a Tarcila. Já “Reclame” [de reclamar, aclamar, chamar duas vezes] é montado através da linguagem publicitária; é uma crítica feita a partir da publicidade da publicidade.

ROTEIRO DAS MINAS revisita as cidades de Minas Gerais. O poeta visita diferentes cidades do interior e dá destaque para os seguintes aspectos: fauna, flora; disputas por riquezas, tradição da cultura colonial; retrata o trabalho de Aleijadinho e o aponta como uma das mais belas expressões de nossa arte. Em “Procissão do Enterro”, focaliza a cultura tradicional e apreende um breve momento lírico. No poema “São João Del Rei”, o poeta narra desde o período da riqueza até o da decadência. “Chagas Dória” reflete sobre a estética. E “Ocaso” faz menção às obras de Aleijadinho, as paisagens funcionando como anfiteatro e as montanhas como cadeiras.

A décima e última parte do livro, LÓIDE BRASILEIRO, é uma “revisão geral do Brasil”: o poeta focaliza São Paulo, Fernando de Noronha, Bahia, Pernambuco e Rio de Janeiro. O poema “Canto de Regresso à Pátria” é uma paródia a Gonçalves Dias.

Assim, Pau-Brasil, de Oswald de Andrade, publicado em 1925, é uma leitura obrigatória por redescobrir a cultura e a língua brasileira e, como disse Mário Chamie, por fornecer pistas de nossa modernidade... Pistas puras críticas, históricas e estéticas. Para o poeta a poesia deve ser sempre pura e cândida!

Juliano Klevanskis Juliano Klevanskis é autor de Maíra & Curumim (2005), primeiro da tetralogia sobre os povos indígenas na história (Curumim na Terra Sem Males, Zorobabê – O Elogio do Medo e História da Poesia Brasílica estão inéditos). Foi indicado ao Prêmio GreenBest 2012 como "Jornalista e Blogueiro". Graduado em Relações Internacionais e mestre em História Geral pela Universidade de Haifa, foi orientado por Amos Megged, filho de um dos maiores escritores de literatura de Israel, Aaron Megged. Morou próximo à fronteira Israel-Líbano, durante a guerra do Líbano de 2006, em Tel Aviv durante a Operação Chumbo Fundido de 2008 e em Jerusalém - experiência que resultou em um livro bilíngue hebraico-português ainda inédito.